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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Abre aspas: Será que a leitura dos jornais nos torna estúpidos? - Rubem Alves

Oi, pessoal!
Hoje eu trouxe pra vocês uma crônica que li em uma prova de Redação há uns três anos e nunca mais esqueci, vira e mexe me pego pensando nela. É sobre a leitura dos jornais e a forma como a mídia funciona atualmente, mas dá para fazer analogia sobre a forma como lemos literatura, também, e até a forma como estamos levando nossas vidas. Talvez vocês já tenham lido por aí, mas vale a pena reler. Se não leu, melhor ainda! Olha só:

Será que a leitura dos jornais nos torna estúpidos?
(Rubem Alves)

 O nome não me era estranho. Eu já o vira de relance em algum jornal ou revista. Mas não me interessei. Aquele nome, para mim, não passava de um bolso vazio. Eu não tinha a menor idéia do que havia dentro dele. Sou seletivo em minhas leituras. Leio gastronomicamente. Diante de jornais e revistas eu me comporto da mesma forma como diante de uma mesa de bufê: provo, rejeito muito, escolho poucas coisas. Concordo com Zaratustra: "Mastigar e digerir tudo, essa é uma maneira suína."
 Aquele bolso devia estar cheio de coisas dignas de serem comidas, caso contrário não teria sido oferecido como banquete nas páginas amarelas de "Veja". Mas eu não comi. Aí um amigo me enviou por e-mail cópia de uma crônica do Arnaldo Jabor, a propósito do dito nome. Crônica que li e de que gostei: sou amante de pimentas e jilós.
 Senti-me parecido com o Mr. Gardner, do filme "Muito Além do Jardim", com Peter Sellers. Mr. Gardner jamais lia jornais e revistas. Fui então até minha secretária e lhe perguntei, envergonhado, temeroso de que ela tivesse visto o dito filme e me identificasse com o Mr. Gardner. "Natália, quem é Adriane Galisteu?" Esse era o nome do bolso vazio. Ela deu uma risadinha e me explicou.
 À medida em que ela explicava, as coisas que eu havia lido começavam a fazer sentido e eu me lembrei de uma história que minha mãe contava: uma princesinha linda que, quando falava, de sua boca saltavam rãs, sapos, minhocas, cobras e lagartos... Terminada a explicação, fiquei feliz por não ter lido. Lembrei-me de Schopenhauer: "No que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Essa arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público. Para ler o bom, uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos... Muitos eruditos leram até ficar estúpidos." Existirá possibilidade de que a leitura dos jornais nos torne estúpidos?
 O que está em jogo não é a dita senhora, que pode pensar o que lhe for possível pensar. O que está em jogo é o papel da imprensa. Qual a filosofia que a move ao selecionar comida como essa para ser servida ao povo?
A resposta é a tradicional: "A missão da imprensa é informar." Pensa-se que, ao informar, a imprensa educa. Falso. Há milhares de coisas acontecendo e seria impossível informar tudo. É preciso escolher. As escolhas que a imprensa faz revelam o que ela pensa do gosto gastronômico dos seus leitores. Jornais são refeições, bufês de notícias selecionadas segundo um gosto preciso. Se o filósofo alemão Ludwig Feuerbach estava certo ao afirmar que "somos o que comemos", será forçoso concluir que, ao servir refeições de notícias ao povo, os jornais realizam uma magia perversa com seus leitores: depois de comer eles serão iguais àquilo que leram.
Faz tempo que parei de ler jornais. Leio, sim, movido pelo espírito apressado da leitura dinâmica; apressadamente, deslizando meus olhos pelas manchetes para saber não o que está acontecendo, mas para ficar a par do menu de conversas estabelecido pelos jornais. Muita coisa importante e deliciosa acontece sem virar notícia, por não combinar com o gosto gastronômico dos leitores. Se não fizer isso, ficarei excluído das rodas de conversa, por falta de informações. Parei de ler os jornais não por não gostar de ler, mas precisamente porque gosto de ler.
As notícias dos jornais são incompatíveis com meus hábitos gastronômicos: leio bovinamente, vagarosamente, como quem pasta... ruminando. O prazer da leitura, para mim, está não naquilo que leio, mas naquilo que faço com aquilo que leio. Ler, só ler, é parar de pensar. É pensar os pensamentos de outros. E quem fica o tempo todo pensando o pensamento de outros acaba desaprendendo a pensar seus próprios pensamentos: outra lição de Schopenhauer.
 Pensar não é ter as informações. Pensar é o que se faz com as informações. É dançar com o pensamento, apoiando os pés no texto lido: é isso que me dá prazer. Suspeito que a leitura meticulosa e detalhada das informações tenha, frequentemente, a função psicológica de tornar desnecessário o pensamento. Quem não sabe dançar corre sempre o perigo de escorregar e cair... Assim, ao se entupir de notícias como o comilão grosseiro que se entope de comida, o leitor se livra do trabalho de pensar.
 A maioria das notícias dos jornais, eu não sei o que fazer com elas por não entendê-las. Penso: se eu não entendo a notícia que leio, o que acontecerá com o "povão"? Outras notícias só fazem explicitar o que já se sabe. Detalhes, cada vez mais minuciosos, das tramóias políticas e econômicas de um Maluf, de um Jader, nada acrescentam ao já sabido. Esse gosto pelo detalhe escabroso deriva da pornografia, que extrai os seus prazeres da contemplação dos detalhes sórdidos, que são sempre os mesmos.
 A dita reportagem sobre a tal senhora e as notícias sobre Jader e Maluf atendem às mesmas preferências gastronômicas. Será que as notícias são selecionadas para dar prazer aos gostos suínos da alma? E os suplementos culturais? Deveriam se chamar suplementos para os eruditos. É preciso ter doutorado para os entender. Não é comida para pessoas comuns. Pessoas do povão nem mesmo os abrem.
 Ao final de sua crônica, o Arnaldo Jabor dá um grito: "Os órgãos de imprensa devem ter um papel transformador na sociedade..." De acordo. Dizendo do meu jeito: os órgãos de imprensa têm de contribuir para a educação do povo. Mas educar não é informar. Educar é ensinar a pensar. Os jornais ensinam a pensar? Repito a pergunta: Será que a leitura dos jornais nos torna estúpidos?


Vou deixar vocês refletirem e comentarem ;)


Beijo,
Ná Mazzilli

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Abre aspas: O chato - Martha Medeiros

 Fazia tempo que eu não postava nessa coluna, né?
 Contei pra vocês no último OQVEL que estava lendo Montanha-russa, o livro de crônicas da Martha Medeiros. Então, terminei de ler em poucos dias... O que eu tenho pra contar é que a maioria das crônicas tem uma linguagem muito simples e informal e várias vezes achei que a autora caiu muito pro lado da auto-ajuda que eu, particularmente, acho bastante chato. Por isso eu não gostei de algumas crônicas e não daria cinco estrelas para o livro.
 Mas tem muitas crônicas bonitas, e com algumas eu senti que a autora tinha entrado no meu cérebro, porque me identifiquei muito. Escolher uma para vir mostrar pra vocês foi facílimo, porque eu tenho certeza que a maioria também vai se identificar com essa! Olha só:


O chato
(Montanha russa - Martha Medeiros)

 Outro dia conversava com uma senhora que me falava sobre seu filho de 25 anos. Ela me disse que o filho adora ler. Que lê poesia desde menino. Que conhece a obra e a biografia de grande parte dos escritores gaúchos. Que não errou uma única questão na prova de literatura, quando fez vestibular. Que não consegue pegar no sono sem antes ler ao menos algumas linhas. E aí ela me alertou: "Mas não é chato!".
 E continuou justificando: disse que o filho adorava sair à noite, escutava rock, viajava bastante e tinha a cabeça superboa. Não era chato. Tive que rir. Por que ele seria?
 A gente se apega aos estereótipos e não repara no quando eles podem ser equivocados. Coloque um livro na mão de um rapaz e logo o imaginamos dentro de uma camisa trancafiada até o último botão, óculos fundo de garrafa e o ombro meio curvado. Provavelmente é anti-social, só escuta música barroca e vive citando Platão. Não parece mesmo muito divertido.
 Quem é viciado em leitura também pode gostar muito de fazer musculação, ouvir U2, viajar para a Califórnia, saltar de pára-quedas, trabalhar com fotografia, todas essas coisas empolgantes que parece que só os não-chatos tem acesso, como se os chatos pudessem ser classificados por seus hobbies.
 O pecado do chato é a oratória. Ele fala muito. Fala sobre os assuntos que não nos interessam em nada. Ou até nos interessam, mas não naquela hora em que você está parado no meio da chuva enquanto ele te segura pelo braço, ou quando você está atrasado para uma reunião e ele continua falando do furúnculo nojento do tio dele. O chato não tem timing.
 Uma pessoa pode adorar Beatles e ser extremamente agradável contando alguns episódios de sua visita a Liverpool, mas vai ser um chato de ficar tocando Yesterday a noite inteira no violão. Uma pessoa pode adorar culinária e ser extremamente agradável ao falar dos pratos exóticos que experimentou em Cingapura, mas vai ser um chato se ficar dissertando sobre as propriedades malignas de um hambúrguer. E uma pessoa pode detestar ler e ainda assim ser extremamente agradável dançando, conversando sobre informatica, contando duas experiencias com a Power yoga ou lembrando-se do encontro inesperado que teve com a Madonna num elevador em Los Angeles.
 Livro nos dá conhecimento, uma visão mais aberta da vida e nos ensina a escrever melhor. Não nos torna chatos nem nos salva de sê-los. Chato é quem não nos faz rir.

Nem preciso dizer nada, né? Espero que tenham gostado!

Beijo,
Ná Mazzilli

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Abre aspas: Vida que segue - Larissa Siriani

Oi gente!

Vocês já conhecem o propósito dessa coluna e eu trouxe hoje um textinho de uma autora nacional que eu gosto muito, a Larissa Siriani.

Então, está aí! Se curtirem a escrita da Larissa procurem mais informações no site dela ou na nossa coluna ali em cima em "Autores".  Vamos valorizar os NOSSOS autores, galera!



Vida que segue
Larissa Siriani


Ele não te quer. Vida que segue.
Você se xinga, chora, se odeia, tenta descobrir o que deu errado. Acha que a vida acabou, que o amor é uma mentira, que nada vale a pena, que a felicidade não é pra você, que os homens são todos iguais, que Deus te abandonou, que nunca mais vai parar de doer. Então se fere mais pra agastar a dor, procura nos erros a resposta, tenta esquecer criando algo em que pensar, tenta se iludir de novo, procura insistentemente se apaixonar por qualquer um que te sorria, mas então desiste, e chora, e xinga e odeia. Ai pára. Reflete. E é pensando que uma hora vê. Vê que não foi sua culpa, que tinha (ou não) que ser, e que a cura não depende de outra pessoa. Acha em si mesma a resposta pras perguntas, o fim pras angústias, o perdão, quiçá até o esquecimento. Ele não te ama, mas um dia amou. Ele te fez chorar, mas quantas outras te fez rir! Ele te esqueceu, ele superou, ele seguiu em frente, ele achou outra pessoa, mas tudo bem. Um dia chega a sua vez. Vida que segue.

Deem uma passadinha no blog dela aqui: http://larissasiriani.blogspot.com.br/
Confiram seus livros, contos, textos e etc.

Beijos,
Ká Andrade



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Abre aspas: Sufoco - Lucas Bilk

O Abre aspas é uma coluna onde apresentaremos para vocês crônicas de autores famosos ou nem tão famosos assim. É um espaço para divulgação desse tipo de escrita, assim como de novos autores. Hoje, irei apresentar para vocês, o trabalho de um amigo meu:
"Gosto de me ver feito as escadas de Escher. Confuso, obtuso e caótico. Cheio de portas e caminhos. Vejo minhas histórias indo e voltando por lugares emaranhados de idéias que criei. Tive uma dezena de fases. Escrevi sobre falsas histórias de amor, busquei o amor como queria que fosse, busquei criar o que não vivi. Escrevi desamor, do amor que achávamos que era, do amor que era mentira. Quis incomodar, causar dor, fui ultraviolento. Enfrentei os medos em forma de animais. Vivi, enfim o amor. Escrevi o amor. Aprendi que o poeta tem alma. Durante todo o tempo que escrevi busquei organizar todas estas minhas camadas. Mas é impossível conter tudo em perfeita ordem. Ora um texto traz uma nova personalidade a mim, ora uma personalidade antiga volta. Não sou eu quem faz minhas histórias. Elas são feitas de mim, e são elas quem me fazem. Assim, cada palavra é um degrau de Escher, cada escada dá em uma porta. Mas estas portas eu nunca sei onde darão em mim. Vou e volto através de todas as minhas portas interiores. Organizo o caos, ainda que seja feito dele. Apenas fiz de mim a minha escrita."
Visite o blog de  Lucas: Isso não é amor e outras histórias.

Sufoco
Lucas Bilk

"Tente respirar. E você vai ver que o ar do lugar não é o suficiente. Bata nas paredes e ouça o som metálico da sua voz caindo pelo fosso. Veja a imagem desfocada de seus olhos vermelhos no espelho.

De manhã, você fez a barba, escovou os dentes, e veio.

Você está preso entre o décimo e o décimo primeiro andar.

Se não fosse tão baixo, você tentaria abrir as portas. Você sabe que se você forçar, e tentar sair pelo vão, o elevador pode descer e você vai ser cortado pelo meio. Feito aqueles filmes de terror.

Tente gritar. E você vai descobrir que não há mais ninguém no prédio. O aço escovado reflete todo o seu desespero. E você está enclausurado na cápsula metálica.
Você liga o celular e lembra daquela aula do Ensino Médio: "elevadores criam uma blindagem eletrostática."
Você lembra disso, mas não lembra da merda do aniversário da sua mãe.
Se essas aulas tivessem servido para algo você não estaria aqui, agora.

Tudo o que você fez durante toda a sua vida encaminhou você para esse momento.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Abre aspas: Eu juro - Antonio Prata

 Gente, vim inaugurar uma coluna nova!
 Sou uma grande fã de contos e crônicas. Acho livros de contos a coisa mais deliciosa do mundo, do tipo que você vai lendo sempre que tem um tempinho... Mas, como são várias histórias diferentes, fica difícil fazer uma resenha sobre o livro e julgá-la num todo. Então, resolvi trazer, esporadicamente, alguns dos meus textos preferidos e mostrar pra vocês.
 Podem ser contos, crônicas ou poesias. E vão desde Clarice Lispector e Lya Luft a Antonio Prata e Luís Fernando Veríssimo... Quem sabe você se interessa por algum livro, não é? Espero que gostem da nova coluna e comentem bastante!